O risco de diabetes tipo 2 está fortemente ligado à obesidade. As taxas de diabetes atingiram proporções epidêmicas de acordo com a OMS, refletindo o rápido aumento da prevalência da obesidade em todo o mundo. É de se esperar que, devido ao seu IMC relativamente baixo, vegetarianos ocidentais tenham um menor risco de diabetes quando comparados aos não-vegetarianos.
Usando dados da coorte do estudo Adventist Health Study-2 (AHS-2), pesquisadores demonstraram um menor risco de diabetes em semi-vegetarianos, lacto-ovo-vegetarianos e veganos em comparação com não-vegetarianos, sendo o risco para os vegetarianos a metade do risco dos não vegetarianos em geral, após ajuste para IMC.

No estudo “AHS-2” da Universidade Loma Linda, foi examinada a relação entre as dietas vegetarianas e ambas prevalência e incidência de diabetes mellitus tipo 2. Os participantes foram agrupados como vegan, lacto-ovo-vegetariano, pesco-vegetariano, semi-vegetariano ou não-vegetariano (grupo de referência). A prevalência de diabetes tipo 2 foi de 2,9% entre os vegans, 3,2% entre os ovo-lacto-vegetarianos, 4,8% entre os pesco-vegetarianos, 6,1% entre os semi-vegetarianos e 7,6% entre os não vegetarianos. Na análise estatística, comparados com os não-vegetarianos, ajustando as variáveis (para idade, sexo, etnia, escolaridade, renda, atividade física, observação de televisão, hábitos de sono, consumo de álcool e IMC) os RRs para prevalência de diabetes tipo 2 foram de 0,51 (95% IC 0,40; 0,66) para os veganos, 0,54 (IC 95%: 0,49; 0,60) para os ovo-lacto-vegetarianos, 0,70 (IC95%: 0,61; 0,80) para pesco-vegetarianos, e 0,76 (IC95%: 0,65; 0,90) para os semi-vegetarianos.
Entre os 41.387 participantes que não relataram ter diabetes mellitus no início do estudo, um questionário de seguimento após dois anos obteve informações sobre o desenvolvimento do diabetes. Os casos de diabetes desenvolveram-se em 0,54% dos veganos, 1,08% dos lacto-ovo vegetarianos, 1,29% dos pesco vegetarianos, 0,92% dos semi-vegetarianos e 2,12% dos não vegetarianos. Quase 4 vezes menor incidência de diabetes em veganos comparados com os não-vegetarianos. Os negros tiveram um risco aumentado em comparação com os não-negros (odds ratio [RR] 1,364, intervalo de confiança de 95% [IC], 1,09-1,70). Na análise estatística, controlando a idade, gênero, educação, renda, observação de televisão, atividade física, sono, consumo de álcool, tabagismo e IMC, os veganos (RR 0,38; IC 95% 0,23-0,61), lacto-ovo-vegetarianos (RR 0,61; 95% IC 0,50-0,76) e semi-vegetarianos (RR 0,48, IC 95% 0,31-0,75) tiveram um menor risco de diabetes do que os não-vegetarianos, sendo 62% menor risco para os veganos. Em indivíduos não-negros, as dietas veganas (RR 0,42, IC 95% 0,24-0,74); lacto-ovo (RR 0,68, IC 95% 0,54-0,86); e semi-vegetarianas (RR 0,50, IC95% 0,30-0,82) foram protetoras contra a diabetes. Porém, entre os negros somente as dietas veganas (RR 0,30, IC 95% 0,11-0,84), e lacto-ovo-vegetarianas foram protetoras (RR 0,47, IC 95% 0,27-0,82), tendo a dieta vegana uma redução no risco de 70% para esta população. Estas associações foram reforçadas quando o IMC foi removido das análises.
O principal achado deste estudo foi que as dietas veganas, ovo-lacto-vegetarianas e semi-vegetarianas foram associadas a uma redução substancial no risco de diabetes comparadas com as dietas não-vegetarianas, após ajuste para IMC e fatores socio-demográficos e de estilo de vida. Entre os participantes não-negros, as dietas vegana, ovo-lacto e semi-vegetariana foram associadas a um menor risco de diabetes, enquanto entre os participantes negros, apenas as dietas veganas e ovo-lacto-vegetarianas foram associadas a um menor risco de diabetes. O aumento no risco de diabetes no subgrupo de etnia negra foi da ordem de um terço, enquanto a proteção proporcionada pelas dietas veganas neste subgrupo foi de 70% e pela dieta ovo-lacto-vegetariana de 50% sugerindo que o tipo de dieta vegetariana pode ser uma forma de neutralizar o aumento do risco de diabetes para os negros (Fig. 1)
Parte da proteção associada com dietas vegetarianas é devido ao menor IMC de vegetarianos em comparação com não-vegetarianos, no entanto, as associações continuaram fortes após ajustar para o IMC. Além disso, mecanismos plausíveis têm sido propostos para explicar a proteção associada com dietas vegetarianas. Frutas e vegetais podem contribuir para uma diminuição da incidência de diabetes tipo 2 através da sua baixa densidade energética, baixa carga glicêmica e alto teor de fibra e macronutrientes. Outras características da dieta vegetariana são grãos integrais e leguminosas. Estes alimentos foram mostrados em melhorar o controle glicêmico, diminuir a taxa de absorção de carboidratos e o risco de diabetes [3,4].

Os dados do Estudo Adventista são concordantes com os achados de outro estudo muito semelhante conduzido com 4.384 adultos budistas de Taiwan que também mostrou uma prevalência 3 vezes menor de mulheres diabéticas entre as vegetarianas comparadas com as onívoras e metade da prevalência em homens. Neste estudo o risco de desenvolver diabetes caiu mais da metade em homens e ate 75% em mulheres vegetarianas [7].
Como conclusão dietas vegetarianas e veganas foram associadas a uma substancial e independente menor incidência de diabetes entre participantes negros e não-negros, indicando o potencial destas dietas para conter a atual epidemia de diabetes.
fontes:
Vegetarian diets and incidence of diabetes in the Adventist Health Study-2
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2. Aune D, Ursin G, Veierod MB. Meat consumption and the risk of type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis of cohort studies. Diabetologia. 2009; 52:2277–87. [PubMed: 19662376]
3. Jenkins DJA, Kendall CWC, Marchie A, Jenkins AL, Augustin LSA, Ludwig DS, et al. Type 2 diabetes and the vegetarian diet. Am J Clin Nutr. 2003; 78(Suppl):610S–6S. [PubMed: 12936955]
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6. van Woudenbergh GJ, van Ballegooijen AJ, Kuijsten A, Sijbrands EJ, van Rooij FJ, Geleijnse JM, et al. Eating fish and risk of type 2 diabetes: a population-based, prospective follow-up study. Diabetes Care. 2009; 32:2021–6. [PubMed: 19675200]
7. Taiwanese Vegetarians and Omnivores: Dietary Composition, Prevalence of Diabetes and IFG

